segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mulher de 30 na França


* Questionário do ginecologista francês na primeira consulta:

- Nome? Data de Nascimento? Quantos filhos?

* Boletim semanal de informações da empresa:

- XXX é a nova diretora de vendas para o mercado Europeu. Ela tem 34 anos, é mãe de duas lindas meninas de 4 e 6 anos, diplomada pela escola Y (uma das mais reputadas e caras escolas Superiores de Comércio da França)... (o texto continua explicando sua experiência em todos os detalhes)

Aqui na França, aos 30 anos a mulher tem que ter uma carreira, ser excelente mãe de 1 ou mesmo já 3 filhos, ser bela, ter um corpo magro e esportivo, comer só produtos saudáveis, oriundos dos pequenos produtores locais (mas na sobremesa pode exagerar, ah, isso pode!), e ainda cuidar da casa sem faxineira, pois faxineira na França é para os fracos, exploradores de mão de obra simples e para as preguiçosas ou princesas.

Se tem uma outra coisa que me irrita, é quando alguém insiste que...
... a mulher tem que ter filhos, pois é a natureza, e ela foi criada por isso.

Eu acredito que a sociedade evoluiu muito desde a pré-história, passando pela Idade Média e outras épocas mais modernas. Se remontarmos no tempo, a relação que se tinha com os filhos mudou muito, assim como a maternidade. Antigamente (bem antigamente) as mulheres não se questionavam, ter filhos era "natural" e era essa a razão da vida delas. E ter filhos não significava que estabeleciam com eles a mesma relação que as mães tem hoje, de carinho, cumplicidade, afeição. 

Infância como nós vemos hoje também não existia, é uma construção social moderna (assim como adolescência é um conceito social aindamais atual). Em histórias da Idade Média era muito comum a mãe perder um ou mesmo mais filhos e todo mundo via como algo natural, a mulher jovem ainda poderia ter muitos outros, mas era certo que perderia outros tantos.

Mesmo atualmente, em familias muito pobres já vi isso. Certa vez, um menino que vendia doces após o almoço de porta em porta na praia que eu frequentava não veio uma tarde. No dia seguinte, a gente disse que o esperou. Ele conta então que o irmãozinho tinha morrido e tinham ido enterrar. Falamos que sentimos muito e ele disse que não tinha problema, pois já era o terceiro e a mãe estava grávida novamente!!! Em meus trabalhos nas comunidades pobres de Porto Alegre ou arredores ainda persiste essa idéia de a mulher só existe enquanto tal enquanto pode "procriar". Nem mesmo a esterilização de cadelas de rua não eram aceitas por essas mulheres nessas comunidades pois segundo elas a razão de existir de um animal do sexo feminino é a procriação, isso independente da religião.

Também já vi muitas famílias no Brasil que encarregavam um dos filhos de ir morar com a avó ou um outro parente, algumas vezes por problemas econômicos, mas as vezes era para que esse parente não ficasse sozinho na velhice ou doença. Puxa, sempre achei muita responsabilidade sobre os ombros de uma criança, sem contar essa geralmente "quase-exclusão" do seio da família. Mas quem sou eu para julgar?

Sem contar as famílias mais abastadas de épocas também remotas, cujas mães quase nunca se ocupavam dos filhos, que eram amamentados por amas de leite e que só vinham alguns minutos por dia passar um tempo com a mãe quando estavam arrumadinhas e alimentadas! 

Se isso era comum entre a nobreza e burguesia, hoje não chega a ser muito diferente com alguns ricos. Conheço um casal de brasileiros com muita grana que batalhou muito para ter filhos e após vários abortos espontâneos e traumáticos enfim conseguiram. Mas eles andam para cima e para baixo com 2 babás ao mesmo tempo, 24 horas por dia... Nunca foi a mãe ou o pai que se levantou para se ocupar do bebê, e logo apóso parto a mãe passava 4 horas por dia em atividades esportivas para retomar a forma, alem de viagens sem o bebê para o Hawai, Europa, etc. Nem eram os pais que levavam a criança no médico!!! E esse não foi o único caso do tipo que presenciei, mas eram os mais ricos.

Além disso, em muitos países da Europa, dentre eles a França, o aborto é legalizado. Muitas gestantes tomam essa decisão em casos de problemas com o desenvolvimento do bebê ou riscos de saúde, mas uma outra parcela muito mais importante faz essa escolha pelo fato da gravidez ter acontecido em um momento não propício da sua vida. Até hoje, sempre que falei com alguém daqui sobre o assunto, mulheres e homens ficam surpresos quando eu evoco se o aborto não provocou sentimentos de tristeza, culpabilidade, etc, como se eu fosse o ser mais estranho do planeta por ter pensado nisso.

Já ditadura da criança-rei é um fenômeno relativamente recente, em que as familias se organizam ao redor da criança, fazem tudo em torno dela, e inclusive se sentam para brincar com a criança!!! Na minha geração os pais não brincavam com as crianças, que brincavam simplesmente entre si ou sozinhas. Aí vem aquela história para mim ridícula de que não se deve ter apenas um filho, que o mesmo vai ser mimado e egoísta... Como se o mundo não estivesse cheio de egoístas e mimados que foram criados entre irmãos!

Agora os pais que não se sentam 4 horas por dia para brincar com os filhos são acusados pelos outros  de serem péssimos pais!

Toda essa introdução para dizer que atualmente a mulher pode ter uma outra função na sociedade, para com a sociedade ou com ela mesma, que ela não está limitada a um útero que fecunda. Hoje a mulher moderna SE PERGUNTA se ela quer ter filhos. Pode ser que a resposta seja "sim", "não" ou "talvez", porque ela pode ver um outro sentido na sua vida. E eu acredito que todas elas devem ser respeitadas nas suas decisões.

E mesmo assim, muitas ainda se deixam influenciar pela sociedade, e aqui na França na minha opinião a pressão na classe média é ainda mais forte do que na classe média brasileira.

13 comentários:

Helô Righetto disse...

olha, a miha decisãpo está feita e eu não quero filhos. crianças não tem espaço na minha vida e vejo o horror no rosto das pessoas quando eu falo isso. como se eu estivesse desperdiçando algo sabe? eh realmente um assunto que me incomoda demais, esses questionamentos todos. insuportável.

Enaldo Soares disse...

Se dependesse de mim as pessoas teriam no máximo um filho, e mesmo assim em condições muito especiais.

KINHA disse...

Olá Milena

Nunca imaginei que em um país que se diz de primeiro mundo tivesse esta mentalidade. Sou totalmente a favor da livre escolha.
Uma ótima 2º feira para vc...

AMIGA da MODA by Kinha

Bruxa do 203 disse...

No Brasil a cobrança por filhos é bem grande também, inclusive muita gente tem filhos só para cumprir com a regra da sociedade. Já vi pessoas dizerem "se você não quer ter filhos, é mulher para quê?". Outros dizem que têm pena de quem não tem filhos e de quem mora sozinho. Estranho.

Isso de que filho único é egoísta e não sabe dividir é um preconceito horrível. Muitas vezes a criança que não tem outras crianças em casa desenvolve mais facilidade de fazer novas amizades e pode até ser mais aberta em relação a diferenças.

Penso que aborto é um tema tão complexo que fica difícil ser contra ou a favor. Prevenção seria mais fácil e menos doloroso, mas enfim...

Daphne disse...

Nao imaginava que na França, tao vizinha da Italia, tinha toda essa pressao de formar familia. Digo isso pelo indice baixo de natalidade na Italia, conhecida atualmente como "paìs de velhos", apesar que de uns 3 anos para cà, dizem as pesquisas, os casais estao aumentando a familia em ao menos 1 filho, coisa rara. Normalmente sao estrangeiros que encontramos com 1 ou mais filhos. Dizem que as italianas querem se dedicar à profissao e quando finalmente chegam ao objetivo, la pelos 40, acham mto tarde para a maternidade. Vejo tbm na escola de meu filho(5 anos) que eu sou uma das mais jovens maes, se vc olhar fisicamente, as maes italianas de filhos de 5 anos tem entre 45 e 50 anos de idade! Interessante tudo isso. Penso como vc, cada um è livre para escolher o pròprio caminho que o faça feliz, nao deve sentir obrigado a seguir o que a sociedade impoe, isso acontecia nos tempos em que a mulher nao tinha voz na sociedade, hoje todos somos iguais, ao menos, esperamos, nao?!
bjs,
Daphne

Ana Maria Brogliato disse...

Olá Milena!
Ontem te escrevi um comentário bem longo e deu erro na hora de enviar *%#@+§~*%...
Adorei seu post e seu ponto de vista. Eu também não tenho filhos e foi por opção, já que nunca tive vocação para ser mãe. O que não significa que eu não goste de crianças. Mas a cobrança dos outros é grande e quando digo que não tive filhos porque não quis, me olham meio estranho. Mas não dou bola, pois jamais teria filhos para "parecer" normal aos olhos das outras pessoas.
Bom, eu fiz um post, que na verdade é uma resposta a tag que uma amiga blogueira muito querida me fez e precisava indicar 10 blogs. Acho delicado demais esta parte, mas como era para falar sobre livros, decidi fazer as indicações e entre elas, está você.
Se fosse selinhos eu não faria, pois nenhum leitor procura nosso blog para ler sobre selinhos, mas dica de livros já é diferente.
Se você não quiser indicar os 10 blogs, indique apenas o livro num post (quase que eu fiz assim), mas não se sinta no compromisso comigo em fazer este post. A indicação eu chamaria mesmo de sugestão. É mais livre.
Beijão,
www.viagensebeleza.com

Mirelle Matias disse...

você acha que na frança tem mais pressão pra mulher ser mãe do que no brasil?

acho que moramos em franças diferentes.

Raquel M.B.G. disse...

Interessante. Não sabia que as francesas eram assim neuradas, kkk. Concordo com você, ter filhos é uma opção de vida, ou seja OPÇÃO! Uma importante escolha, certamente, mas deve partir de um desejo do casal, e de nada mais. Beijos

Milena F. disse...

Hêlo, cada um tem direito as suas escolhas, eu ainda não decidi, provavelmente se morasse no Brasil jah teria cedido à pressão!

Enaldo, radical, hein??? Mas enquanto uns tem 5 ou 6, que o povo deixe em paz quem não quer ou mesmo quem não pode!

"Bruxa", sobre o aborto prefiro nem entrar em detalhes, mas concordo com todo o resto que você falou!

Daphne, a França é considerada um dos paises mais "ferteis" da Europa!!! Existe sim uma diferença muito grande entre cidades grandes e cidades pequenas da França, onde a fecundidade é ainda maior.

Ana Maria, bom ler o depoimento de alguém que tb assume essa decisão! Sei que é necessario ter muita coragem!!!

Mirelle, eu falo de classe média. Das minhas colegas de faculdade e mesmo nivel social ou econômico, aos 30 anos ainda nenhuma tem filho... Outro dia até peguei uma lista com mais de 200!!!
Jah aqui na França, a minha base de analise são as escolas em que o meu marido trabalha (em Paris), onde ele tem mais de 600 alunos por ano (e idade dos pais), além dos colegas dele funcionarios, as professoras especializadas aos 30 anos estão engatando os 3 filhos um apos o outro! Minhas colegas de trabalho a mesma coisa, sem contar os incentivos das empresas francesas para os filhos. Além disso, a cada vez que vou a um médico francês, eles insistem para que eu tenha filho, que é agora ou nunca, que aos 32 anos jah estou passando do tempo...
Sabe o que me dizem todos os dias? Que se eu esperar muito, meus filhos terão vergonha de pais que mais parecem avos!!! kkk
Mas vocês dois com as suas carinhas de jovens talvez não cheguem a chocar o povo pelo fato de não terem filhos ainda!

Raquel,
Cada um fica com a sua opção, como se diz, o importante é ser feliz com as suas escolhas!!!

Renata disse...

Dava pra eu fazer um post igualzinho a esse em versåo Sueca, embora digam que aqui o povo tem a mente mais aberta eu nåo vejo isso na hora de cobrarem filhos dos casais.Aqui virou moda ter um filho atras do outro pois elas dizem que e mais facil cuidar de todos de uma so vez, beleza mais pra mim isso nåo rola rs.Por diversas vezes ja arrumei discussoes por causa disso e hoje em dia quando me perguntam o "por que" eu nåo tenho filhos eu ja fecho logo a cara pra cortar logo o assunto e fora que quem nåo tem filhos fica fora da panelinha dos que tem.O mais engracado e que no Brasil eu nåo sentia tanta pressåo quanto aqui.
Adorei o post,bjosss

Tatiane disse...

Nossa eu vejo pelas minhascolegas de faculdade Milena e estão todas com filhos acho que 80% das meninas ja são m2aes e aqui na França sem comentarios passou dos 25 anos você ja é velha para ser mãe é uma pressão total , a minha médica também vive me dizendo sobre o lance da idade.
E sobre ter cara de vos para os filhos nossa ja ouvi igualzinho por aqui, e isso não é so naclasse média, acho que em todas as classes rola isso. Eu vejo pessoas que fizeram estudos super dificeis e longos mas que logo fazem filho ou alguns fazem filho no meio do percurso escolar....

Sandra disse...

Sinceramente eu ainda não me decidi sobre ter ou não ter filhos e acho um SACO gente sem noção, que sequer é sua amiga ou tem intimidade com você, ficar querendo saber QUANDO você terá filho. Ninguém pergunta se você QUER, mas sim quando os terá, como se ser mãe fosse uma obrigação sua :-(.
Aqui eu vejo muitos casais com filhos em escadinha, as mulheres preferem interromper a carreira somente uma vez para cuidar dos filhos todos juntos e voltar ao trabalho quando eles estiverem maiores. Não observei por aqui uma cobrança da sociedade por ter filhos, mas já conheci mulheres que engravidaram por diversos motivos, mas SER mãe é bem diferente de TER um filho.

Josy disse...

Outro dia desses eu escrevi um post sobre esse assunto.

Eu odeio essa pressão dos 30!

Eu quero ter filhos, dois ou até 3! Amo crianças, só não estou preparada para tê-los agora!

Beijos