quinta-feira, 14 de julho de 2011

As idades da mulher

          As pessoas que realmente me conhecem sabe que não faço parte do grupo das mulheres mais vaidosas do mundo... Antes mesmo de morar na França era uma briga com a minha mãe, que não entendia como eu conseguia sair de casa "com a cara limpa", sem nem mesmo um pózinho ou um rímel (sem rímel, pecado capital). Mas também quem me conhece um pouquinho sabe que vivi uma certa crise dos 30 anos... Não do ponto de de vista físico, mas muito mais do ponto de vista emocional.

          Penso que se eu estivesse ainda no Brasil não teria vivenciado nada disso, mas na época, praticamente nova em um outro país, começando uma nova vida e em muitos aspectos recomeçando do zero, confesso que vivi sim uma angústia de ter entrado na casa dos 30, idade em que eu me imaginava no passado estabilizada financeira, profissional e relacionalmente. Mas foi um choque me encontrar aos 30 com um estatuto de estudante e sem emprego! (dois dias antes meu contrato temporário tinha sido encerrado e não me deram nenhuma perspectiva, mas duas semanas depois me chamaram novamente para novos pequenos contratos e 6 meses depois recebi meu tão sonhado contrato por tempo ilimitado!).

          E imagino que o tempo não é vivenciado da mesma forma para homens e mulheres. Não sei se é por viver ao lado de alguém com um espírito de guri* (garoto, em gauchês), que não se incomoda com a passagem do tempo, mas para mim o tempo não passa desapercebido de jeito nenhum...

          Vejo as pessoas que deixei para trás e que aos 30 anos se tornaram diretor de alguma coisa, abriram a própria empresa ou já ganharam milhões, ou então viajaram o mundo... Ou então estão com família bem constituída, filhos, casa grande com piscina, jardim e dois carros na garagem... Tanta coisa que ainda quero fazer, mas o tempo passa tão rápido que os projetos e sonhos ficam na gaveta! Tantas viagens que quero fazer, tantos novos pratos que quero provar, tantas outras idéias de trabalho e carreira, e no meio disso os tão debatidos filhos...

          E agora estou quase de malas prontas para visitar a família no Brasil e já percebo uma certa cobrança das pessoas que me conhecem de vista (os famialiares e amigos próximos acho que conseguem ser mais discretos em suas expectativas e decepções)... Ou a cobrança é minha mesma? Primeiro porque não sou diretora de nada (ou seja, como a maioria dos franceses, tenho uma carreira estagnada), tenho um marido mas já passei dos 30 e não tenho filhos (outro pecado mortal!), e vivo na Europa porém ao contrário do imaginário tupiniquim, não sou rica...

          E ainda no meio de tudo isso me olho no espelho e nas antigas fotos e vejo que mudei, é lógico, não sou mais a mesma... Será que todo mundo vai reparar e dizer que j'ai pris un coup de vieux? (que eu envelheci?)
Uma das mais conhecidas obras de Gustav Klimt, As 3 idades da mulher (de 1905), que fala do ciclo de vida em uma harmonia regressiva, uma oposição entre a vida e a morte, um contraste entre a infância, a maturidade e o envelhecimento. Engraçado como na nossa sociedade a maturidade está relacionada ao ato de gerar uma vida (ou seja, para as mulheres, de ser mãe). Klimt também colocou uma certa ênfase na "feiúra" do corpo da "velha", representando da mesma forma uma posição de aflição.

Essa foto é de 2009, realizada assim que voltamos do Brasil...

9 comentários:

Carla (Arroz de Minhoca) disse...

Estou sensibilizada, e sei bem o que sentes, e-x-a-t-a-m-e-n-t-e
E olha que já passei até pela fase seguinte (a crise dos 40)
Mas sabes, qdo chegamos lá no Brasil, nossos amigos tb envelheceram, alguns com filhos estão divorciados, outros tem que recomeçar do zero aos 40, etc, etc...

Na semana passada, descobri que "quero" envelhecer sim... o motivo? Quem envelhece, viveu :)
Boa viagem!

Mônica disse...

Querida Milena!
Primeiro queria te agradecer o teu carinho comigo, embora eu nao retribua com tanta frequencia, quero que saibas que gosto muito dos teu comentários e me identifico com muita das coisas que você escreve e vive aí.
Uma delas sem dúvida é a questao deste post o tempo... bendito? maldito? já tive minhas dúvidas, porque me sintia da mesma forma que você descreveu, ainda pior, porque ainda continuo com a vida de "estudante". Quanto aos 30...pufff acho que demorei um ano para dizer: eu tenho trinta...justamente por pensar em tudo que acarreta chegar a essa idade sem ter obtido a maioria das coisas que o senso comum acha que deveriamos ter...Felizmente, hoje já vejo tudo diferente, acho que na vida vamos fazendo escolhas, e a que fizemos (de mudar para um país e começar do zero) é algo que poucas pessoas fariam ou teriam coragem de fazer e por conta disso compreendi, aprendi e vivi muitas coisas que as pessoas que escolheram os caminhos "ditos" como corretos, nao terao nunca a oportunidade de vivenciar...quem ganha, quem perde? Nao sei, mas hoje me sinto feliz com a escolha que fiz e por isso sou capaz de aceitar o tempo de outra forma, tanto o que atua sobre o meu corpo como o que atua nos acontecimentos e na ordem natural da vida...de cada vida que é única!!!
Enfim querida, se pensamos friamente em quem se importa conosco e com quem a gente se importa, pode ter certeza que relaxaremos e aproveitaremos cada etapa da nossa vida respeitando o tempo que ela tiver!!!
Beijos!!!
Mônica

Mikelli disse...

acho que desde que nós nos sintamos satisfeitas e felizes, essas convenções passam a ser secundarias. Que no Brasil a cobrança é grande, é, mas depende da gente permiti-la ou nao ;) sejam felizes do jeito que vcs queiram e que os outros e as convenções se explodam hehe =) bjs!

*Mademoiselle Susie* disse...

Meu Deus do Céu!
Francamente, você transcreveu o que se passo no profundo do meu coração.
Sobre, status financeiro, relacionamento, a única coisa diferente é que ainda não tomei a atitude de sair do brazuca, mas garanto o que o coração está sempre a palpitar por ir mais longe. Estou na mesma situação, chegando aos 30, e aí? Onde estou? Onde cheguei? Mas como a Monica disse, já me arrependi algumas vezes, mas agora, desencanei, vivi, fiz burrada, mas aprendi, o que vale e o que não vale a pena.
Beijocas de uma Brazuca com coração Europeu!
Mademoiselle Susie

Milena Fischborn disse...

Carla, vc tem toda a razão!!! A gente acha que a grama do vizinho é mais verde, mas quando a gente olha com atenção vê que nem todo mundo estah por cima em tudo, isso é impossível!
Monica, sábias palavras! Mas ainda não estou nesta fase tão evoluída à qual vc chegou! Para mim ainda entro em pânico diante a idéia de decpecionar as pessoas que eu amo, a partir dos conceitos delas, é claro, pois como vc disse, quam tem razão e quem ganha e quem perde? Quem diz que temos que seguir apenas os caminhos convencionais?

Mikelli, vc falou tudo, existe sim essa cobrança, de quem ainda mora no Brasil ara quem veio morar fora... Mas aí depende da gente mesmo tomar para nós essas cobranças... E essa cobrança de filhos é universal!!!

Susie, espero que vc consiga realizar os seus sonhos e morar onde vc gostaria! Me dá um ódio imenso quando abro uma revista e vejo o perfil de uma mulher com menos de 30 anos, linda, corpo maravilhoso, mãe de 2 filhos, carreira impecável e marido maravilhoso... E para nós vem toda essa pressão de ter uma vida perfeita... E muitas pessoas acabam tendo essa imagem de quem mora fora, não sei ainda porque!!!

Obrigada pelos comentários carinhosos!

Carla (Arroz de Minhoca) disse...

Milena... mães de revista não existem! É humanamente impossível uma mulher ser linda, jovem, empresária, provocante, sedutora, mãe, faxineira, cozinheira, funcionária e ainda por cima esposa de marido perfeito...
Marido perfeito é o "nosso de cada uma", feito exatamente à nossa medida com todas as virtudes e defeitos de um "ser humano"

Mais uma coisinha, para as meninas de 30 que escreveram aqui: "Ser mãe aos 40 é o máximo!!!"

Mulher de Fases disse...

Milena, você sempre me passou ser uma mulher forte, decidida, corajosa, cheia de atitude... Que acabei sendo pega de surpresa nesse post. Acho o máximo você abrir seu coracão assim e contar coisas que te afligem.
Pensa assim flor: Se você nunca tivesse ido a Franca, talvez nunca tería passado por essa experiência maravilhosa de conhecer outra cultura, língua, talvez não estaria agora com o grande amor da sua vida... Nós abrimos mão de algumas coisas para ter outras. A vida é assim!Ninguém pode ter tudo ao mesmo tempo. E esses seus conhecidos que hoje tem uma vida profissional tão destinta, já viajaram meio mundo, fizeram isso e aquilo... Sem dúvidas também abriram mão de coisas que provavelmente vc näo sabe (horas de sono, dias de lazer com a familía e etc...)

Linda, tudo é uma questão de ponto de vista, aos poucos as coisas vão chegando para você, os filhos também! Você vai vêr...

Mariana disse...

Milena, ainda não cheguei nos 30, mas acho que vivemos pequenas crises diárias.
Estou voltando para o Brasil, depois de passar um tempo na França e não ser ainda uma pessoa estabilizada financeiramente me incomoda bastante. Muitas pessoas que eu conheço já estão com a vida encaminhada e eu ainda buscando um lugar ao sol. Pretendo seguir uma carreira diferente da minha área de formação e é como começar do zero novamente. Por outro lado,tenho colegas no Brasil, da época da faculdade, que não conseguem um bom emprego ou que não estão satisfeitos com a profissão, mesmo tendo estudado em uma boa universidade...
Quanto à cobrança, isso existe mesmo. O pessoal acha que quem mora na Europa tem que ser feliz 24 horas por dia! E sobre ter filhos, é uma cobrança natural em cima das mulheres, nós mesmas fazemos isso. Infelizmente, as cobranças estão por todo o lado: se você é solteira, tá na hora de arrumar namorado, depois que tem um, quando vai ser o casamento? E depois, quando vêm os filhos?
A verdade é que ninguém sabe da sua vida melhor que você. Ligue o foda-se e seja feliz!!!

K∂riиє* Smith. disse...

Me identifiquei muito com esse post, porque tenho a mesma "nóia", a cobrança é grande, né? Também sinto isso e imagina eu que larguei duas carreiras para virar house wife? hahahah

Também envelheci e aos 32 anos a cara e as gordurinhas localizadas entregam...mas a maturidade faz a gente ser mais sexy, mais interessante e boa de papo, caracter´^sticas muito melhores do que uma cara sem marcas de expressões, você não acha?

beijo