segunda-feira, 15 de junho de 2015

Como é morar no exterior?

Todos os dias recebo dezenas de mensagens de pessoas que dizem que não aguentam mais morar no Brasil e querem deixar o país.
No meu caso não foi assim. Nunca tive nada contra o Brasil e apesar de ter uma origem simples e ter estudado em escola publica, tinha sido aprovada em uma excelente universidade publica, esforcei-me bastante, fiz diversos estágios, me formei, consegui um emprego na área que eu buscava e ainda atendia paralelamente no meu consultorio. Conseguia economizar e viajava um pouco, e provavelmente se tivesse ficado no Brasil hoje eu teria uma carreira estabilizada, meu carro e teria financiado uma moradia (pois tinha o sonho de morar sozinha, contudo não queria pagar aluguel).

Porém o que aconteceu comigo foi uma insatisfação interior, eu era (e sou) uma eterna insatisfeita. Quando cheguei onde sempre quis estar, já não era mais isso que eu queria. Queria ver o mundo, fazer alguma coisa diferente. Freud já tinha me alertado.

Durante toda a minha adolescência sonhei com o Japão ou os EUA, mais tarde com a França e a Alemanha, e também sempre quis conhecer a China ou a Russia (não exatamente morar nesses lugares).

Era uma insatisfação comigo mesma e com a vida que eu levava, e um conjunto de circunstâncias me trouxeram à França. Poderia ter sido a Alemanha, a Inglaleterra ou a Itália, mas foi a França, não sei explicar direito, foi algo que aconteceu naturalmente e eu decidi agarrar essa oportunidade, "pagar para ver", voltar mais tarde. Era uma experiência que eu PRECISAVA viver. Desejo ou necessidade? Provavelmente os dois.

Algumas pessoas tiveram comentários maldosos do tipo "em dois anos vai voltar com o rabinho entre as pernas e dois filhos debaixo dos braços" (?!?). Justamente eu que saia de um relacionamento sério de 3 anos, então acho que eu não tinha lá essa fama de "avoada". Mas algumas pessoas falam e são maldosas mesmo, e pelo que tenho visto nesse mundo afora, infelizmente tenho a impressão que é no Brasil onde as pessoas mais cuidam da vida dos outros. 

Para mim foi tão natural chegar aqui na França, me virar no meu francês muito básico, aprender a cada dia palavras novas. Tive a sorte de conhecer um amigo, um companheiro que se tornou o meu marido e que me ajudou nessa adaptação. 

Eu sou o tipo de pessoa que prefere fazer as coisas sozinha e gosto de estar sozinha, então essa forma de "exilio" nunca me incomodou. Muitas pessoas não gostam da minha personalidade, por essa auto-suficiência. Vivo a minha vida de forma a tentar não depender dos outros e consequuentemente sou menos disponível aos outros. 

Quando cheguei aqui passava muito tempo nos transportes diariamente para ir à Universidade, eu sozinha com os meus livros, e os contatos multiplos (mas superficiais) que ali realizava era suficientes para mim. Passava boa parte do meu tempo livre passeando pela cidade, visitando museus ou olhando vitrines, atividades que nunca me importei de fazer sozinha. Gostava de ir ao supermercado e passava horas descobrindo os produtos que para mim eram novidade e gostava de observar o que as pessoas colocavam no carrinho (uma prática que sempre repito nas minhas viagens). Ia à piscina e gostava de ler nas bibliotecas de Paris, aprendi que não é o fim do mundo ir ao cinema desacompanhada ou sentar em um café, mas ainda não gosto de ir ao restaurante sozinha. 

Como em uma corrida, podemos estar rodeados de milhares de pessoas, mas estamos sozinhos, cada um diante de seus próprios limites. 
Vai depender de nós mesmos desistir ou avançar, de ninguém mais. 
E isso é genial.

Gosto de estar sozinha, gosto do silêncio. 
Ha muitos anos não preciso ligar a tv para sentir uma "presença".

Em outubro de 2009 começei a trabalhar na minha empresa atual, mas no inicio era apenas um emprego temporário, queria entrar na vida produtiva, ganhar um pouco de dinheiro, mas na época trabalhava menos, conciliando com os estudos. 
No trabalho não foi fácil no inicio, não fui muito bem aceita por algumas pessoas, mas hoje olho para trás e percebo que não era "preconceito", mas sim porque eu tinha uma forma diferente de trabalhar e de pensar que não combinava com a forma de trabalhar da empresa e da França em geral. Comecei a ter mais auto-confiança e fui observando os outros e aprendendo com alguns comportamentos que achava bons, e jogando fora outros que eram ruins, e aos poucos fui sendo não apenas aceita, mas apreciada e mesmo elogiada. Recebi diversas promoções e novas responsabilidades nos ultimos anos e fui ficando, pois mesmo se o que faço hoje não tem relação direta com a minha formação de Psicóloga, gosto do meu trabalho e sou feliz assim. 


Paralelamente, fui ficando na França pois o meu casamento está dando certo e aqui escolhemos para viver. Tenho 6-7 semanas de férias por ano, nas quais sempre viajamos e nas outras 45-46 semanas trabalho, curto a vida parisiense tão rica em atividades culturais, gastronomia e lazer e não tenho tempo de reclamar nem de sentir falta do Sol do Brasil nem do calor humano brasileiro, que sinceramente, nunca foi tão evidente para mim. 

Não vejo o Brasil tão ruim assim como alguns dizem, mas sempre repito que não me encaixo numa certa mentalidade brasileira para a qual tudo é feito para os ricos, que só os ricos são valorizados. Não quero viver em uma sociedade em que somente o médico, engenheiro e advogado sejam considerados pessoas de valor. Na qual para se ter um emprego "correto" é necessario ter doutorado. Em que as pessoas são julgadas pelo carro que têm ou o lugar onde passam as férias. 
Sim, como eu entendo que muitas pessoas não apreciem a minha personalidade!!!

Sinto falta da minha família, e muito,  de alguns amigos e alguns lugares, mas aprendi que no meu caso, saudade dói mas não mata. Não podemos evitar a dor, mas depende de cada um sofrer ou não.

Passei 28 an os da minha vida no Brasil. Não tenho a pretensão de ser vista como "uma francesa", inclusive o meu diferencial aqui é ter uma outra bagagem. E no meu dia a dia (que é bem carregado) de trabalho, obrigações e lazer nem dá tempo de sofrer preconceito.

Essa é a minha historia com a Europa, que esta dando certo há quase 7 anos. Não quer dizer que seja a melhor, nem tem nada de especial, mas é a minha. 
E nem digo que seja melhor viver na França. Eh o melhor para mim e por enquanto. 

Quem sabe o que é melhor para você é você mesmo, não é?

21 comentários:

erikasz disse...

Me identifiquei muito com a sua postagem! Estou em Paris à pouco menos de 5 meses... sou muito independente e gosto de fazer as coisas sozinha! Saí do Brasil por querer sair, talvez só por um tempo, da minha profissão e considerar esta mudança impossível por lá! Ainda não estou trabalhando, estou estudando francês e adorando todos os dias que passo aqui! Gosto de ver que está dando certo pra você! ;)

Jorge Fortunato disse...

Milena,
Não sei se vc acredita em destino, mas algumas coisas acontecem por que tem que acontecer... As pessoas em geral, e aqui no Brasil, falam muito. Eles ficam falando, e a vida vai passando e enquanto isso quem segue em frente chega mais rápido! E foi o teu caso e de quebra, conheci você o Sylvain e jantamos naquele restaurante que volto sempre, pois amei aquele Cassoulet srrssrsr
Abraços


Nira Lima disse...

Milenaaa me senti nas suas palavras,parece que eu escrevi esse texto.Temos quase que o mesmo trajeto e pensamentos.Ps: Mesmo nao comentando aqui com frequência estou sempre visitando seu blog pelo celular bjos

Sandra disse...

Ai Milena, esse post poderia ser escrito por mim, pois me vi em muitos parágrafos. Acho que temos personalidades muito parecidas. Eu tb adoro ficar sozinha e prefiro fazer muitas coisas só, não sou de me abrir com todo mundo (coisa de psicólogos, rs...) e sou de poucos, mas BONS amigos. E, depois de uma certa maturIdade eu acabei me afastando de pessoas que nÃo acrescentavam nada na minha vida e estou BEM melhor assim. Como vc, não tinha nada contra o BR e até me causa uma certa antipatia essas pessoas que saem/sairam do Brasil e começam a só falarem mal do país, a torto e a direita. Problema todo lugar tem. Já fui, indiretamente "acusada" de passar uma imagem perfeita da Suíça. Entretando a Suíça NUNCA foi vista por mim como um paraíso. Eu gosto demais daqui, é verdade, mas longe de mim acreditar que aqui tudo é perfeito. Se escrevo algo, tento focar no positivo, no belo, no que for bom e produtivo e simplesmente ignorar o que não me faz bem. Assim tenho feito, assim vou continuar, porque a minha vida flui melhor assim!

Eliana disse...

Milena, só é possível fazer um post assim depois de se passar por muitas coisas! Sua vida não começou ontem, né? E não foram só de momentos maravilhosos...olha só, foram os percalços que te trouxeram onde você está. A sua eterna insatisfação te trouxe sabedoria, maturidade e ta aí, levando a sua vida na boa, trabalhando, sendo esposa, amiga e, tenho certeza, uma grande amiga para quem realmente merecem a sua atenção.
Você não tem a receita perfeita, aliás ninguém tem! Como eu costumo dizer, a vida é de cada um, pessoal e intransferível!!!! Bjs e boa semana.

Andréa de Azevedo Freitas disse...

Milena, mais uma vez parabéns pela sua lucidez. Me identifico bastante com as suas colocações, endosso as suas palavras. Só acrescentaria o fato de que o Brasil hoje vive um surto de corrupção e violência nunca visto (ou nunca revelado). Muitos, como eu, se sentem acuados por um país que não é justo. Sob essa ótica, sair daqui por contrariedade não me parece reprovável. Não existe país perfeito, mas o nosso está bastante IMPERFEITO. Beijos, tudo de bom pra você.

Jeh disse...

Eu tb cheguei pra passar 1 ano (como fille au pair) e fui ficando, ficando... adoro ficar sozinha tb! O Que mais gosto dessa minha vida na França é o silencio, a calmaria, essa coisa de marcar hora pra ver os amigos e pra receber visita na sua casa pois assim me organizo. Fora que ir as comrpas e ao cinema sozinha é a melhor coisa para o auto conhecimento. =)
um beijo

Ana Maria Brogliato disse...

Oi Milena, muito bom o seu texto, me identifiquei em muita coisa.Nem vou enumerar porque vai tomar muito espaço aqui, hehehe..
Sou muito auto suficiente também, odeio depender dos outros e às vezes sou tida como arrogante, mas não é nada disso, adoro ficar na minha e conversar com meus botões.
A tv eu não ligo há meses, adoro ficar pensando no silêncio do meu apê. E como sai há pouco de um casamento de 10 anos (separação bem traumática, eu diria), minha vontade é de sair viajando pelo mundo, para novas descobertas. Não de amores, mas de vidas!
Comecei passando 33 dias na India, fiquei encantada (em breve começo com os posts lá no blog) mas achei pouco, já estou com vontade de correr mundo novamente...
Tenho a nacionalidade italiana também e poderia morar em qualquer país da Comunidade Europeia, mas ainda estou decidindo, pois acho que eu preciso mesmo é de um ano sabático, seja lá onde for e depois voltar.
Beijos
www.viagensebeleza.com

Adriana Naramoto disse...

Muito linda a história de vida que tens e as escolhas que fizeste para ti! Sinto-me orgulhosa e privilegiada de ter feito parte um pouco da tua vida! Bjs

Eloa Mello disse...

Oi Milena, adorei seu blog. me identifiquei muito, pois como voce tambem sou estrangeira (no meu caso no Japao). Em janeiro, eu e minha familia visitamos a Franca e adoramos. Voltaremos agora em deembro de novo rsrs :D
Temos vontade de morar ai na Franca no futuro entao vou te acompanhando pra ler suas dicas e relatos.
Sucesso pra ti! beijos

Rosely disse...

Excelente texto.to Cada um tem seu jeito, sua personalidade. O que é bom pra mim, pode não ser pra vc. Cada um tem a sua vida, suas experiências. Otima reflexão para aqueles que acham que qualquer lugar no mundo é o paraíso e que o Brasil é uma porcaria. beijo grande.

Bruxa do 203 disse...

Também adoro fazer as coisas sozinha. Moro em Porto Alegre e o povo daqui é exageradamente intrometido e carente. Tenho que sair correndo, fugir mesmo para poder almoçar sozinha, fazer compras sozinha. Cheguei a desistir de ir a uma academia porque as pessoas queriam alguém para conversar na esteira.

Sobre estudos e diplomas, é curioso como só se valoriza quem tem doutorado, sendo que, em geral, muitos desses doutores mal sabem escrever.

Juh disse...

Oi Milena, me identifiquei muito com o seu texto.. Adorei seu blog! Bjos! Juh

naterradaluavirada disse...

Muito legal o seu post Milena, me identifiquei demais! Se um dia, nessas suas 6 semanas de férias por ano, você tiver vontade de passear no Canadá, espero que vocês passem por Montréal - e que você me dê um alô pra gente ir tomar um café juntas! ;)

Beijos,
Lidia.

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Milena.
Cada pessoa tem uma vida, com um percurso só seu. São tantas vidas, tantas gentes, tantas histórias...
Eu sou uma brasileira que também é portuguesa há 29 anos - my God! Pois é ;)

bj

Anônimo disse...

Oi Milena! Amei o seu texto, vc tem uma visão tão singular das coisas, sem deslumbramento, mas ao msm tempo sabendo apreciar/valorizar o que vc tem na sua vida ..gostaria de saber em qual área vc trabalha, qual o seu emprego, pois tb tenho planos de mudar p/ a França, mas estou meio perdida quanto a isso ..Obg.

Gisley Scott disse...

Você como sempre arrasando. Você se parece muito com meu marido nesse aspecto da solitude. Ele não precisa de ter muitos amigos e de ter gente entrando em contato com ele o tempo inteiro. Ele tem mais facilidade do que eu de aceitar quando as coisas não rolam com as pessoas em termos de amizade. Ele não se frustra quando algo não vai pra frente. O bom da pessoa aprecia a própria compania é que ela aprende que o que vier do outro é lucro, é extra então ela não lida com um sentimento de falta pois aprendeu a nutrir a si mesma. Algo que eu tenho aprendido com os meus quase 7 anos por aqui. Doeu mas caiu a ficha.

Bjos

Gisley Scott -Blog Querido Deus obg por me exportar

Flavia disse...

Se passaram tanto tempo e sua forma sincera de escrever não mudou, que bom, gosto da sua personalidade, hoje em dia as pessoas se escondem tanto que quando lemos algo verdadeiro quem é de verdade se identifica . Eu também fazem 7 anos que moro em São José do Rio Preto interior de São Paulo, sinto falta da família mas como você disse saudade dói e não mata. Gostaria ainda de mudar mais porém, ainda não tivemos oportunidade morar fora é um desejo meu, nem que for 1 ano. Milena você é uma vencedora, trabalha na Europa e se estabilizou, isso é uma vitória te admiro muito.Beijocas

Ricardo disse...

Oi Milena,

Sou um recém chegado aqui no Canadá, e ao ler seus posts me identifiquei bastante. A partir de agora serei um leitor fiel do blog.

Quem vive no Brasil acha que morar no exterior é "glamour", mas a vida não é fácil. Acho interessante a expressão que se usa em inglês "walk on someone shoes" para expressar a idéia de que só se conhece uma situação após tê-la vivenciado.

Gosto da forma que você descreve os relacionamentos de amizade. Assino embaixo, passo pelas mesmas dificuldades para fazer amigos.

Um abraço e tudo de bom pra você!

Fabiane Langon Lorenzi disse...

Oi, Milena!
Resumindo as coincidências, sou psicóloga, formada há 5 anos, vivendo uma vida relativamente estável (na medida do possível com esse momento turbulento que estamos vivendo). Os próximos passos da "cartilha" talvez fossem comprar um carro, um apartamento, uma casa na praia, casar e ter filhos. Mas não, o plano é morar na França a partir de setembro desse ano. "Largar tudo" (apesar de eu achar que nada se perde, talvez esse seja o medo mais comum) e viver plenamente uma outra experiência/realidade. Como comentaste, também não saio daqui porque odeio o Brasil, mas entendo que preciso viver outras experiências. É uma necessidade, uma busca. Cansei de só fazer aquilo que "agrega ao currículo" ou que posso colocar no linkedin. Vou viver!

Lidia Esser disse...

Nossa, me identifiquei demais. Sinto mt td isto. Mt legal ler e se identificar assim.