terça-feira, 19 de agosto de 2014

Vivendo e aprendendo - fazendo arte

Se eu tivesse que escolher uma só coisa que mudou em mim nesse tempo que moro na França (em breve 6 anos), eu diria que foi a minha forma de ver o mundo. Só isso.

Só isso?
Morar na França pode proporcionar uma abertura imensa para os olhos, para a alma e estou sempre aprendendo. Aliado a isso acabei conhecendo quem hoje é meu marido e que também tem uma forma diferente de ver o mundo. Sua área de estudos e de trabalho envolve artes plásticas ou artes aplicadas e no Brasil tive muito pouco contato com pessoas com uma certa abertura para o universo artístico.

Algumas pessoas menos cultas acham que ter aula de artes na escola é a maior perda de tempo, "com tanta criança e adolescente que mal sabe ler e escrever corretamente e que não sabe calcular direito". Segundo a população que não teve acesso a esse tipo de aprendizado, é uma perda de tempo, dinheiro (ainda mais se for público) e energia.
Confesso com uma certa vergonha que por algum tempo também pensei assim.

Mas a gente vai vivendo e aprendendo e hoje entendo o que o meu marido sempre quis dizer que o mundo seria muito triste (e feio!) se fosse feito só de matemática, leitura, ortografia e gramática!

Só tenho que concordar!
Lembro que uma candidata à prefeita da minha cidade, perto de Porto Alegre, um dia conversando comigo me falou de seus projetos que tormar a cidade mais "bonita". Plantando flores, árvores, arrumando as calçadas, como ela tinha visto em cidades da Alemanha. Eu achei a idéia ótima, mas sabia que ela não iria ganhar, afinal o povo de cabeça pequena pensa que é desperdício de dinheiro público gastar dinheiro do contribuinte com essas coisas!
E mais tarde um outro prefeito, a primeira coisa que ele fez foi mandar pintar a prefeitura que há muitos anos estava em um péssimo estado. Não preciso dizer que foi altamente criticado por estar se preocupando com algo tão sem importância. Mas não é porque somos pobres que temos que viver no meio do lixo ou da feiúra!
(Bom, alguns vão dizer que a beleza e a feiúra são conceitos individuais. Não, meus caros leitores, são conceitos que variam de acordo com as épocas, determinadas culturas, existem certas diferenças individuais, mas existe um certo concenso. Mesmo se tenho a impressão que no Brasil muitas pessoas acham bonito autoestradas e viadutos, estacionamentos gigantes em detrimento de uma arquitetura urbana e paisagismo mais elaborados, com prédios bonitos e bem-cuidados, jardins e parques.)

Como se só isso não fosse suficiente, as aulas de artes (nas escolas) proporcionam um melhor desenvolvimento da motricidade fina, o senso de observação, podemos mais facilmente relacionar história, geografia, geometria, arquitetura e design. Fica mais fácil compreender o mundo! Ou seja, só temos a ganhar, mesmo se nunca vamos trabalhar diretamente com isso.

Sem contar que o nosso mundo está repleto de referências artísticas e não falo dos museus. Falo da vida real. Isso vai desde a garrafa de Coca-Cola, o vidro do seu perfume favorito, aquela jóia (ou bijouteria) que você adora, aquela roupa linda que você está namorando há dias em uma vitrine. Tudo o que você vê e toca, teve alguém que pensou naquilo antes. Mesmo os filmes que você vê (cheios de refências artísticas), os seus cantores preferidos e seus clipes.

Será mesmo que se você tivesse escolha escolheria morar no local que aparece na segunda foto?



10 comentários:

Karla Gê disse...

POis é, Milena! As pessoas esquecem que uma cidade mais bonita, mais agradável aos olhos, traz mais qualidade de vida a seus habitantes. Esquecem que um aluno que consegue perceber a arte, a beleza por trás de uma escultura ou pintura, vai se interessar tbm pela história que envolve aquela obra e vai ter outra visão do mundo, menos obtusa, mais condescendente. Mas para a maioria do povão o que importa mesmo é "pão e circo" pq arte...isso é visto como algo menor....uma pena! às vezes eu falo que viajo e visito museus e alguns amigos torcem o nariz dizendo "não vou atravessar o oceano pra ver coisa velha". É triste ver como a cultura e a arte são mal interpretadas por algumas pessoas...
Beijos

Eliana disse...

É que o povo, Milena, sem as principais necessidades básicas, perde a sensibilidade e, por isso, pensam que a "arte" é desperdício. Também concordo que melhorar os arredores, deixar tudo mais visivelmente bonito e limpo aumenta a autoestima e com isso vem a transformação das pessoas. Afinal, como vc mesmo citou, tudo a nossa volta tem arte e, claro, estamos sim sempre olhando o belo, seja onde for! Bjs

lili disse...

Tem razão.

essataldealemanha disse...

POis, escrevi mais ou menos sobre isso. rsrs
A gente tem que ter aberta à mudanças e a novas perspectivas. Arte, design, música, cultura... nem todo mundo sabe o que realmente significa.

Val Bruno disse...

Compreendo e admiro a sua mudança na forma de ver o mundo. Pois penso que as pessoas tem que ter a cabeça aberta pra mudanças,melhorias.Pq esse é o papel do ser humano, melhorar a sua capacidade, sua perspectiva.Em relação à sua critica ao modo ver do povo brasileiro em relação ao estudo de artes nas escolas, sinto que é mais uma questão política, ou a falta do interesse de nossos gestores políticos em relação ao assunto! Eu dive a experiência de estudar na rede pública, e sim a precariedade do ensino e gritante! E tal vez por isso, acho sim que é desperdício estudar não só artes como também a filosofia e a sociologia, pois a falta de interesse política e e a precariedade pode até desestimular professores e alunos. Não sei como é o ensino aí, mas aqui o fato de estudar essas três matérias em apenas dois anos letivos e uma vez por semana, talvez seria sim um desperdício de tempo e dinheiro, pois o aluno não apreende quase nada!Como seria bom ter realmente um ensino de qualidade, onde poderíamos, apreender sobre e as técnicas de Tarsila Amaral, Aleijadinho (isso, pra valorizar o que é daqui, coisa que muitos de nós não sabe), e não em apenas uma aulas estudar Pablo Picasso, e outra estudar o Surrealismo, Modernismo, Dadaismo , em outra estudar Michelangelo e Portinari, como se todos as obras e técnicas de cada se resumisse em apenas uma aula de 50 minutos! Então só por essa questão acho que é desperdício, pela falta de uma gestão política que realmente DESENVOLVA O ENSINO. Mas isso vc deve saber, mas com não sei como é aí, sugiro pra a vc um novo tópico onde nos conte um pouco sobre como é o ensino desse país com tantas arquitetura e artistas (não só pintores, mas também filósofo, músicos e outros) que nos impressiona.

Berço do Mundo disse...

Viajar já muda a nossa "roupagem da alma", como diria o grande Mário Quintana. Mas viver no estrangeiro então, abre-nos todo um novo mundo. Eu, que nasci em África mas cheguei a Portugal com apenas uma semana de vida, morei no Brasil durante um ano. E também caíram por terra muitos preconceitos (não os vou enumerar, senão você me apedreja, rs).
O reverso da moeda é que algum tempo depois, você já não pertence a nenhum dos dois países, se sente meio desenraizada. Aí, o remédio é tornar-se uma cidadã do mundo!
Beijinhos, um doce domingo
Ruthia d'O Berço do Mundo

fernanda disse...

Sou portuguesa reformada. Desejava saber se 1.600 euros por mês dão para alugar um studio em Paris, viver e pagar todas as contas, energia água, etc. Obrigada. E em Marrocos?

Milena F. disse...

Karla, concordo com o que você disse... Acredita que uma vez uma pessoa me disse que o que tinha de mais bonito no louvre era um banco de plástico para se sentar... Ninguém é obrigado a gostar, cada um tem as suas preferências, mas esse tipo de perceoção, sem valorizar NADA (nenhuma obra do museu, nem mesmo sua arquitetura, nada) é algo que tenho dificuldades em aceitar.

Eliana, entendo perfeitamente que primeiro temos que ter as necessidades básicas safisfeitas para então aspirar a algo mais. Mas nem por isso temos que subestimar as pessoas achando que elas não são capazes ou não precisam. Lembro que na minha escola os professores de inglês ensinavam todos os anos o verbo to be e nada a mais... E diziam que não valia a pena o esforço (deles e dos alunos) se a gente nunca iria usar, pois a maioria dos alunos eram filhos de agricultores!!!

Val Bruno, as políticas públicas podem ser precárias mas do meu ponto de vista depende muito do professor de saber e desejar transmitir esse conhecimento e xconseguir passar a importância do mesmo. Muita coisa que eu estudei e das quais me lembrava muito vagamente, só fui entender quando vim morar na Europa. Só discordo com o seu ponto de vista de que estudar 1h por semana é muito pouco... Já dá para aprender muita coisa!!! vejo os alunos do meu martido com projetos incríveis e resultados impressionantes com 1h por semana, e olha que aqui na França se estuda menos semanas que no Brasil, se não me engano. Mas para que dê certo tem que ser um ensino transdisciplinar. Diversas disciplinas precisam estar envolvidas, como eu disse história, geografia, literatura, filosofia, sociologia, pois desta forma o aluno aborda todos os aspectos de um movimento, de uma época ou de um assunto/tema. Não tem sentido estudar Picasso isolado no meio do nada, o aluno não vai entender e não vai ver relação nenhuma com o mundo ao seu redor.

naterradaluavirada disse...

E como já cantavam lá nos anos 90 (ou 80, não tenho certeza) : a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte! ;)

Beijos,
Lidia.

Milena F. disse...

Fernanda, tudo depende do seu estilo de vida. Se for em Paris, com 1600e por mês o orçamento é apertado pois a moradia geralmente custa bem caro, mas em outras localidades da França dá para viver melhor com esse mesmo valor.
E se for no Marrocos você provavelmente pode fazer a "festa" com essa renda mensal!