terça-feira, 18 de setembro de 2012

Datong: Contrastes e Renascimento dessa Cidade Chinesa

A cidade de Datong fica a meio caminho entre Pequim e Xi'an (famosa por seus guerreiros de terracota), no centro da China, na província do Shanxi. Ela conta com mais de 2 milhões de habitantes e é o ponto de partida para quem deseja visitar as famosas grutas de Yungang e o Monastério Suspenso de Xuankong.

Se colocar os pés na China já foi um imenso choque cultural, foi em Datong nosso primeiro encontro com o que realmente eu imaginava da China.

Nos guias de turismo que utilizamos para preparar a viagem, como Lonely Planet e Le Routard, Datong era descrita como completamente sem interesse. Como viajamos a noite inteira de trem, sentados (vagão leito completo) e passamos o dia inteiro nas visitas ao redor da cidade, optamos por passar uma noite ali, recarregar as baterias e partir do dia seguinte.

Porém, para nossa surpresa, ela não tinha nada de feia e sem interesse como diziam os livros de turismo!

OK, "feio" e "sem interesse" é muito relativo, mas para mim foi uma surpresa muito agradável descobrir um pouquinho de Datong.


Saímos da estação e nos deparamos com uma cidade fortificada, obra recente da reorganização urbana, uma tentativa do governo de resgate histórico, retomando os antigos modelos arquiteturais. Tudo novinho em folha e muito bem cuidado!

Nosso hostel (na verdade um novo albergue da juventude) ficava em uma nova rua que tinha sido completamente reformada.

 Pela manhã a rua estava completamente vazia, apenas alguns idosos praticando esportes. Dizem que na China as primeiras horas da manhã pertence aos velhinhos!!!
Quando voltamos já era tarde, cerca de 21h, a rua tinha se transformado em uma feira muito animada. Até aí tudo bem, mas quem diz que conseguíamos encontrar o hostel??? Percorremos a rua umas 15 vezes e eu já estava entrando em pânico! Pela manhã, ele ficava em uma porta de vidro, o térreo estava vazio e subimos até o segundo andar. A noite, para a nossa surpresa, o térreo tinha se transformado em uma loja de roupas!!! Tivemos que entrar na loja, atravessá-la e subir as escadas para encontrar o nosso alojamento!!! Mudanças do dia para a noite que só devem acontecer mesmo na China... (na manhã seguinte a loja tinha desaparecido mais uma vez!)

Sem contar que essa cidade mineira (que por séculos sobreviveu através de suas minas) que sempre foi descrita como extremamente popuída e cinza se apresentou para nós com um céu muito claro e uma qualidade de ar invejável para outras cidades grandes pelo mundo afora. 

O que mais nos impressionou foi o rítmo desenfreado da construção civil por ali. Eu diria que a cidade é dividida em 3 partes: a primeira com seus prédios altos e modernos, a segunda com seus prédios novinhos construídos em estilo antigo, e a terceira a confusão e o vazio de tudo que está sendo destruído para deixar espaço ao novo.






Sei que muitas pessoas criticam esse "renascimento", mas quando vemos o estado dos prédios que estão sendo destruídos, a gente se pergunta como alguém podia viver ali nesses alojamentos completamente insalubres. Muitas construções datam dos primeiros anos do comunismo, quando tudo foi construído rapidamente, sem qualidade e sem estética, já que moradias bonitas, lindas praças e parques eram vistos como um "modo de vida ocidental e burguês".


Muita gente também critica esse retorno ao passado de parte de um governo que por décadas quis acabar com as lembranças históricas. Acontece que muito do que está sendo reconstruído justamente tinha sido destruído pelas autoridades ou em nome dela.

Não sou especialista no assunto, mas algumas coisas até que precisavam ser mudadas, pois em pleno início do século XX a China ainda possuía um sistema feudal (com todos os pontos negativos que isso pode acarretar, não vejo nenhum positivo), a condição feminina melhorou bastante, mesmo ainda estando longe do ideal (práticas como a "bandagem" dos pés foram proibidas, assim como o sistema de "concubinas"). Claro que para nós com esse olhar ocidental e capitalista, eles fizeram tudo errado, tudo atravessado. Então mais uma razão para eu ficar contente com esse projetode tentar  (a)pagar alguns erros do passado.

A China está mudando, e muito rápido, mesmo nas cidades desse interiorzão, mas o que mais encontramos eram pessoas que nos recebiam com grandes sorrisos, como esse vendedor de churrasquinho (desculpem a foto, deem um desconto pelo cansaço e nesse momento já era umas 18 horas e não tínhamos comigo nada desde à noite anterior!), feliz da vida em ter sido o nosso escolhido. Estava tão bom que voltamos!
 Delícia! (só não deu para encarar a caveça de frango!!!)





Se a cidade é toda fake ou não, não me importa. Quem não gosta de viver em uma cidade bonita, limpa e arborizada, e em moradias mais confortáveis? Sem contar o grande trabalho que está sendo feito para reduzir a poluição e seus efeitos, esforços esses que são sentidos no ar e visto pelos olhos (mesmo que ainda sejam considerados muito pequenos em comparação com o que é necessário para preservar o planeta).
Quem adivinha nosso próximo destino?

P.S: Não vou entrar em detalhes das expropriações, pois esse é um tema muito complexo. Certamente muitas pessoas acabam sofrendo em ter que abandonar moradias que tanto representam emocionalmente para elas, mesmo que elas estejam em estado lastimável, representando riscos para elas e para os outros.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sessão Nostalgia

Quando a gente menos espera essa sensação entra no nosso dia e toma conta de nossas sentimentos.

Basta abrir uma gaveta no trabalho e se deparar com um inusitado arroz parboilizado*. Para muitas pessoas esse arroz não teria sentido nenhum, mas para mim ele traz recordações gravadas a ferro e fogo na minha memória. Ele me lembra os melhores momentos da minha juventude e alguns dos mais difíceis também. Pois dos meus 18 anos 25 anos vivi uma linda história de amor. Nós nos víamos todos os dias, eu já acordava feliz da vida pensando no dia que me esperava. Esse encontro já começava pela manhã, continuava durante o almoço e estendia-se pela tarde e início da noite. 

Confesso que até voltava tristinha para casa, não queria me separar de jeito nenhum...

Foi ela que me ajudou a aperfeiçoar o meu inglês e com ela tive meu primeiro contato com a língua francesa. através dela conheci pessoas que foram e ainda são tão importantes para mim. Foi por ela que li muitos livros, que entrei em pesquisa e que fiz extensão.

Em 2005 foi o começo do fim. Eu prometi que nunca a abandonaria, mas terminei a minha graduação e já não tinha tanto tempo para ela. Minhas visitas se tornaram mais espaçadas. Continuamos praticando o inglês, mas a minha cabeça no final das contas foi parar na França e eu já não conseguia mais me concentrar como antes na nossa relação. 

Quando "visitei" o Brasil pela primeira vez, ocasião esta acompanhada do meu marido, fiz questão de apresentá-los. Acho que ele nunca entendeu como a UFRGS** foi importante para mim e o espaço que ela ocupa ainda hoje na minha vida, mesmo assim distante e sem praticamente mais nenhum contato.

Melhor assim, desta forma ele nem se dá conta que seu principal concorrente no meu coração não é nenhum outro homem, nenhuma outra pessoa, mas um conjunto de prédios onde pessoas constroem e transmitem conhecimentos.
Hoje eu daria qualquer coisa para comer aquele arroz parboilizado com feijão no bandejão do RU.
Só hoje, amanhã deve doer menos.
------------------------
Essa é uma homenagem aos meus colegas da Psicologia, da Matemática (sem nem citar todos os outros da Farmácia, Medicina, Odonto, Nutrição, Enfermagem, Engenharias, Letras, Pedagogia...) que cruzaram o meu caminho), da PROREXT (e principalmente do Unisaúde), do SOP, do Hospital de Clínicas... 

* O arroz parboilizado era um clássico da gastronomia do(s) restaurante(s) universitário(s) da UFRGS. Nunca comi em outro lugar.
** UFRGS= Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Restaurante em Paris: Au Petit Marguery

Há alguns anos Sylvain me levou ao restaurante Au Petit Marguery que fica no 13ème (arrondissement de Paris), com a sua decoração que data ainda de 1900 e sua culinária tradicional. As especialidades são as carnes fortes oriundas da caça, mas tem carne de gado, cordeiro e peixes! Desde então fiquei fã da comida, do lugar (uma verdadeira instituição da cozinha francesa) e do serviço!

Porém recentemente descobrimos que eles abriram 2 novos endereços, e fomos conferir o mesmo restaurante que abriu no 17ème, não muito longe da Champs Elysées, justamente na rue de Ternes, localização que adoro!

 A façada retoma o mesmo estilo, mas a decoração interna é bem mais simples, nada de anos "1900". Acredito que pessoas em busca de mais modernidade vão preferir esse endereço, enquanto eu, pela decoração, prefiro o antigo!

Mas o melhor de tudo: o serviço e a qualidade dos pratos, para não dizer mesmo o cardápio, é o mesmo em ambos os restaurantes! O maître d'hôtel nos explicou que tudo é elaborado pelo mesmo chef.

Durante a noite, o menu com entrada, prato e sobremesa começa em 35€, o que considero um preço muito justo para a qualidade. Os preços mais caros são devido aos "suplementos" por pratos considerados mais "custosos" ou "elaborados". Ficamos no básico mesmo:
 Fois gras mais uma vez para Sylvain, os defensores dos animais de plantão vão se revirar em frente da telinha!
 Coxinhas de rã para mim, uma iguaria que considero deliciosa desde que provei em Bourges
 Minha entrada já tendo sido bem "copieuse" (abundante), preferi um peixe com legumes. 
No ponto, textura e sabores perfeitos!
 Sylvain mais uma vez ficou na carne de gado! 
Sempre digo que ele não prova pratos diferentes, mas fazer o quê?
 Como sobremesa, confesso que não aguentávamos mais comer e escolhemos algo que nos parecia bem leve, um creme com morangos (era a sobremesa do dia, e era um dia de verão e muito calor!). Olhando parecia "pesada", mas o creme era bem aerado, ou seja, leve ao máximo, então não tivemos nenhuma dificuldade em terminar a sobremesa.
E ainda descobrimos uma água mineral chamada Chateldon, considerada um produto fino e servida nos melhores restaurantes. Quem acompanha o blog de longa data sabe que Sylvain não bebe nada alcoólico e que sua bebida preferida é água. 
Na descrição da água Chateldon diz que era mesmo considerada medicinal e por essa razão teria sido recomendada ao rei Louis XIV pelo médico oficial da corte! Ela teria sido utilizada diariamente pelo rei e servida em banquetes, inclusive no seu casamento com a rainha Maria Teresa da Espanha. Descobrimos mais tarde que essa água pode ser encontrada em alguns Monoprix (supermercados em todos os cantos da cidade, que vende produtos geralmente de qualidade).

Em resumo, mais uma vez o Petit Marguery nos proporcionou um jantar perfeito!

Detalhe: o endereço do 13ème é menos turístico devido ao bairro mesmo, já o novo deve atrair mais turistas devido à proximidade com os pontos mais turísticos da cidade. Porém em ambos eles pedem "traje correto". Ninguém falou de terno e gravata, ok? Mas melhor evitar a bermuda, sandálias e o aparelho fotográfico no pescoço (nunca vi ninguém lá com essas catacterísticas).

Informações práticas:
Au Petit Marguery - Rive Gauche
9 bd de port Royal (metrô linha 7, Les Gobelins)
75013

Au petit Marguery - Rive Droite
64 avenue des Ternes (metrô linha 2, Ternes)
75017

P.S.: Esse blog nunca recebeu nenhum tipo de contrapartida para falar de algum tema. Todas as informações são baseadas na minha experiência como cliente normal, sem nenhum tipo de ajuda. Caso essa situação venha a mudar no futuro, os leitores serão devidamente informados.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O Monastério Suspenso de Xuankong

À primeira vista essa imagem nos causa um certo estranhamento, para dizer o mínimo. Esse Monastério (Xuankong Si) colado contra a falésia e de frente para a montanha Hengshan (2017m, uma das cinco montangas sagradas da China) nos passa a impressão de estar suspenso no vazio...

Passado esse primeiro minuto de estranhamento, ele é bem real, apesar de cerca de 50 metros acima das nossas cabeças!
Não cansamos de admirá-lo e fotografá-lo
 De todos os ângulos possíveis.
O Monastério Suspenso de Xuankong é uma visita obrigatória para quem vem a Datong em busca de suas riquezas arqueológicas e paisagens atraentes, principalmente nessa região dedicada aos templos e monastérios.
Fundado no século VI, sua última renovação foi realizada na dinastia Qing. Ou seja, ele está lá há mais de 1400 anos!!! Trata-se de um santuário onde se misturam divindades taoístas, budistas e confuncianas.


As salas tem como paredes as rochas, e o restante é de madeira. 

 O espaço é pequeno e estreitinho, é necessário subir por escadinhas e passagens estreitas, no meio de muita madeira antiga e alguns podem até sentir uma certa vertigem!





Alguns visitantes podem achar que a visita não é justificada (130 yuans) quando podemos vê-lo tão bem do lado de fora, mas nós adoramos a sensação de estar pisando nesso local misteriosos que não se sabe exatamente como se mantêm, mas que se mantém por enquanto sem riscos! Além disso, a nada menos que 75km de Datong, ir até lá e não entrar para economizar algum dinheirinho seria praticamente um crime!!!

 Será que cai ou não cai? 
Infelizmente deve "cair" um dia, deixando, aí sim, um grande vazio nessas montanhas... 
Como se ali ele fosse "naturalmente" o seu lugar...

Saindo da cidade de Datong, a cerca de 50km, começa a aparecer uma cadeia de pequenas montanhas que vão aumentando de tamanho até chegar à montanha Hengshan. Podemos observar as grandes plantações, um projeto que exige enormes esforços para minimizar o grave problema da erosão que ameaça o "coração" da China. 

São muitas as surpresas que a China nos reserva e o Monastério Suspenso de Xuankong, perto de Datong, foi apenas uma delas!

Informações práticas: 
Fizemos a visita logo após as Grutas de Yungang, com o mesmo taxista que ficou a nossa disposição até o final do passeio. Existem outras formas de acesso, mas a dificuldade de comunicação, o desconhecimento dos transportes  da cidade e a comodidade nos fizeram optar por esse meio de transporte. Negociamos o preço desde o início e ele foi muito correto do início ao fim, apesar do inglês muito limitado.