segunda-feira, 12 de março de 2012

Descobrindo o Hermitage (em S. Petersburgo)



O Museu do Hermitage (com ou sem H? Depende do idioma!) foi minha carta na manga para convencer meu marido a visitar São Petersburgo. Não apenas apaixonado pelo mundo das artes, mas também professor na área, ele é capaz de passar horas e horas admirando uma obra que o toca! E se eu já era interessada pelo assunto, mas conhecia pouco no domínio, hoje posso dizer que meus conhecimentos já evoluiram muito.
Então já tinhamos decidido que um dia da viagem teria que ser dedicado ao Museu do Hermitage.

Infelizmente (ou felizmente?) nosso segundo dia amanheceu chuvoso e feio, então não pensamos duas vezes e decidimos dedicá-lo às visitas internas, ou seja, ao museu.
Eu já tinha lido em outros blogs que uma boa opção é reservar a visita pela internet, mas o preço me assustou um pouco e decidi ir na "cara e na coragem". O museu abre às 10h30, e então pouco após às 10h já estávamos na entrada, eu fui a primeira da fila!!! 
Sylvain aproveitou para passear e fotografar, apesar do tempo feio. No momento da abertura tinha umas 20 pessoas atrás de nós, talvez tão pouco devido à baixa temporada, ou vai ver que a chuva espantou todo mundo (geralmente é o contrário, todo mundo decide visitar museus e locais fechados quando chove). Desta forma não tivemos dificuldade nenhuma para comprar ingressos e entrar. Pagamos 400 rublos por pessoa, mais 200 pelo "direito" de fotografar (compramos apenas um), o que totalizou 1000 rublos, ou seja, cerca de 25€ no toral. Um preço relativamente alto, considerando que os russos pagam 4 vezes menos, mas vale a pena!!!

Olha, para quem não é apaixonado por museu ou não entende muito, a visita é cansativa, sim! Nós ficamos ali 7 horas, das 10h30 às 17h30, sem pausa para comer nem beber água (estávamos sem água na bolsa, e para comer ou beber alguma coisa teriamos que atravessar todo o museu). O que nos salvou foi uma barra de chocolate amargo que eu tinha na bolsa para uma emergência como essas e que comemos a pequenas doses, disfarçadamente (não estava escrito que era proibido comer, mas também não é legal).

Algumas pessoas com menos pique, menos paciência ou menos tempo preferem escolher qual parte do museu preferem ver, e eu recomendo. Mas quem diz que consigo convencer meu chéri a fazer o mesmo? Ele parecia uma criança em parque de diversões e queria "ver tudo"!!! Começamos pelo térreo, onde encontra-se as artes primitivas. Ali encontramos peças excepcionais da Asia Central, Sibéria, Caucaso que raramente são expostas nos museus europeus.
Objetos em ouro da época dos Scythes (não sei mais como se diz em português) nômades dos séculos VII ao III a.C.

O segundo andar é a parte "nobre" do Hermitage, o mais visitado, com suas pinturas e esculturas entre a Idade Média e o século XIX, separado por "escolas".

Itália

As principais atrações são dois magníficos quadros de Leonardo da Vinci (1452-1519). E praticamente só para nós!!! Eu via gente que passava reto sem nem mesmo olhar, e eu não conseguia desgrudar meus olhos das pinturas!!! 

A Madonna Benois, uma obra de juventude de Leonardo que se tornou mais tarde o grande mestre da Renascença. A grande revelação dessa obra é a forma escolhida pelo artista para representar a mãe e o filho, sem nenhuma formalidade. A flor é observada pelo bebê que descobre o mundo com uma grande curiosidade própria às crianças. As mãos que se tocam e que tocam a flor são sublimes, próprias de um mestre como Leonardo da Vinci (na época, ninguém conhecia a anatomia e sabia representá-la tão bem quanto ele).
Existe uma certa controvérsia em relação a verdadeira autoria dessa Madonna Litta; os estudos preparatórios são de Leonardo, assim como os detalhes, mas o todo difere da "mão do artista". Provavelmente ele começou e um de seus alunos terminou (Leonardo fazia mil coisas ao mesmo tempo e tinha dificuldades em terminar o que tinha começado), ou então um dos alunos fez o quadro a partir de seus croquis e o mestre colocou a sua mão nos detalhes. Em todo caso, o quadro é lindo! A delicadeza do rosto da mãe e o carinho matermal estão presentes de forma bem viva na obra.

Depois vem meu preferido, Rafael (1483-1520):
 A Madonna Conestabile, obra de sua juventude, pequena mas impressionante!
A Sagrada Família

Existem duas salas que são réplicas das salas pintadas por Rafael no Vaticano (a rainha Catarina queria o mesmo no seu palácio!). Mas obviamente não foram pintadas por Rafael, já que datam de mais de 2 séculos após a sua morte!

Uma escultura de Michelângelo (1475-1564)...  


Posição difícil essa que ele escolheu para esculpuir o personagem!!! 
Impossível de representar os detalhes do rosto!

Essa bela Judith de Giorgione (1477/78-1510):

Sempre me impressiono com as pinturas de Canaletto (1697-1769) de Veneza, onde ele observava as ruazinhas, praças, pontes e palácios. 
 Esse quadro representa a chegada em Veneza do embaixador francês Languet em 1726. Cada elemento é descrito com uma precisão incrível. Um verdadeiro registro fotográfico, o que era importante para uma época em que a fotografia ainda não existia.
Aqui vemos a ponte do Rialto mais ou menos na mesma época!

Outra sala impressionante foi uma de esculturas, com peças lindas de Canova (1757-1822).
 O escultor trabalhou temas da mitologia, e seus trabalhos foram reproduridos muitas vezes (por ele mesmo, de acordo com as encomendas). Essa "Amor e Psiquê" que encontramos no Hermitage pertencia à Josefina, esposa de Napoleão. Psiquê coloca uma borboleta na palma de seu amante Eros (Amor). Esse seria o símbolo de uma amor inocente, enquanto a escultura abaixo (Psiquê reaninada pelo beijo de Amor) teria simbolizado o amor carnal.


 São cerca de 30 salas suntuosas dedicadas às obras italianas. Não dá para falar de tudo, mas o museu ainda abriga obras de Ticiano (principalmente seu último período), Veronese, Caravaggio, Giordano, dentre outros!

Alemanha


Apesar de ser menos conhecida e importante em termos de artes e pintura no período da Idade Média e Renascença, já comentei algumas vezes aqui no blog que adoro Lucas Cranach (o pai e o filho, mas principalmente o pai, entre 1472-1553). Então não poderia deixar de visitar às 6 pequenas salas dedicadas à pintura alemã nesse período:


 A direita detalhes da sua assinatura!

Ainda tenho muita coisa para mostrar do Hermitage, mas realmente não cabe em um post só e prefiro separar. Esse foi apenas o primeiro que consegui terminar, por isso segue em primeiro, não exatamente em ordem de importância para mim. Mais detalhes sobre o museu aqui.

sábado, 10 de março de 2012

Economizando e se divertindo !

Se eu já era meio econômica antes, aqui na França virei mesmo pão-dura!!!

Não me compreendam mal, vou tentar explicar:
Não me importo de pagar um preço justo por um produito de qualidade ou pelo qual tive realmente um "coup de coeur" (amor à primeira vista), mas detesto pagar mais caro por algo que posso ter mais barato!!!
Se para mim a imagem do brasileiro segue a linha do americano (na minha cabeça, é claro) de querer esbanjar e não contar dinheiro, vejo o francês, de uma forma geral (claro que existem exceções!!!) como bem mais controlado e que valoriza seu rico dinheirinho.

Por isso há alguns anos se multiplicam por aqui as vendas privés pela internet ou direto nas lojas, cartas de fidelidade de lojas que permitem descontos ou presentes, e sites especializados de desconto. Desde que cheguei aqui ouvi falar de um sistema de compra pela internet que permite obter descontos excepcionais!!! No inicio fiquei com um certo receio, mas confesso que me rendi...

Um dos sites bem conhecidos nesse domínio se chama Groupon... Motivada por amigas, acabei comprando não apenas um, mas dois jantares pelo site!!! Cada dia existem as promoções disponíveis em cada domínio (como restaurantes, por exemplo) e temos um dia ou hora limite para nos inscrevermos. Se a promoção seduzir um número X de compradores, a venda é validada. Se não for, ninguém perde nada. Mas o pagamento é por cartão de crédito no momento da compra (direto ao site).

E além do Groupon, descobri um outro concorrente, o Lookingo.com. Há algumas semanas comprei um jantar e um brunch por esse site, e hoje fui no restaurante. Trata-se do Casa Tina, de comida espanhola, bem pertinho da avenida de Champs Elysées, mas em uma rua perpendicular, e nem um pouco turístico (muitos clientes locais do bairro). O antendimento foi bem caloroso, comida correta (nada espetacular). Ambiente bem simples de bistrô. Pena que esqueci a máquina fotográfica para registrar.

Então aqui vai a dica para quem quer aproveitar restaurantes e outras compras com preços reduzidos! Existem muitas opções para Paris, mas muitas outras cidades francesas estão incluidas, e esse sistema não para de crescer. O unico problema é que a gente recebe diariamente por e-mail muitas ofertas interessantes e dah vontade de comprar tudo!!! Atualmente estou apagando tudo sem ler, pois jah tenho 3 jah pagas prontas para usar e falta tempo!!!

Eu jah jantei, mas bon appétit para quem ainda não jantou!!!

Lookingo

Groupon

Site de descontos especializado em restaurantes:
La Fourchette (mas nesse a gente imprime a redução, e paga direto ao restaurante no dia da reservação.

Casa Tina (e tem um outro restaurante do mesmo dono, a Casa Paco)
Ponto negativo: achei as bebidas um pouco caras em comparação com os pratos e a média dos restaurantes da mesma categoria em Paris.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Igreja da Ressurreição (ou do Sangue Derramado)

Chegando em São Petersburgo, a nossa primeira impressão é que a cidade é linda! Primeira impressão que nos acompanha durante toda a viagem... Tudo lá é grandioso, é esplêndido... Belezas para todos os lados (na arquitetura, nas pessoas, nas roupas...), enormes palácios, parques e estátuas. E no meio disso tudo a gente fica meio perdido, sem saber para onde ir, e com um certo receio de "perder" alguma coisa importante que fica  situada ao lado (o que aconteceu, fazer o quê!).

Algo que nos impressiona muito é a arquitetura das igrejas e templos religiosos, que já estão no imaginário coletivo. E já vou adiantando que tem para todos os estilos e gostos!!!

A mais conhecida dos guias de turismo e que de certa forma representa a cidade aos nossos olhos ocidentais é a Igreja da Ressurreição, também conhecida como Igreja do Sangue Derramado. A Igreja começou a ser construída em 1883 no local exato onde o Czar Alexandre II tinha sido atingido mortalmente 2 anos mais cedo. 










E estilo exterior é neomoscovita, também conhecido como renouveau russo, ou ainda neo-renascença, nada de exatamente novo, mas uma cópia do que já se fazia no século XVII. No alto, 5 grandes bulbos (ou "cebolas"), de alturas e tamanhos diferentes, tão exóticos aos nossos olhos. As cores tardicionais são o branco, azul, verte e amarelo. Dezenas de mosaicos com figuras de santos completam a fachada, o que quebra com o estilo barroco, clássico e neoclássico do resto da cidade. Ela foi totalmente restaurada e reaberta ao público em 1998. 
O interior já é bem diferente, repleto de mármore e toda a iconografia (em mosaico) da igreja ortodoxa que conta a vida de Cristo. 32 artistas trabalharam nos mosaicos do interior, totalizando 12 anos de trabalho. Algumas obras são de extrema maestria, enquanto outras realmente bem simples

Ao lado encontra-se o Museu Russo e os Jardins Mikhaylovskiy, com sua grade em estilo Art Nouveau... S éao metros e mais metros de grades metálicas, tudo feito à mão (!), onde cada motivo vegetal é único. Os jardins são em estilo inglês, restaurado no espírito dos anos 1830. Nessa época do ano só deu para apreciar a neve, as árvores secas e as famílias passeando, mas acredito que na primavera e verão deve ser lindo!



Eu já tinha visitado uma igreja ortodoxa russa quando estive em Biarritz e Genebra e na época fiquei impressionada com os "bulbos/cebolas", assim como com a riqueza da decoração interna, com todo aquele dourado e ícones. A "missa" pode durar horas, os cantos são lindos, mas é claro que não entendi nada... O que sei é que a Virgem Maria é um personagem muito importante e colocado em destaque. Em uma outra igreja que visitamos (falarei mais tarde), nos explicaram que para a Igreja Ortodoxa Russa existem mais de 300 imagens de Maria! Cada uma com um significado e representação diferentes!!!

terça-feira, 6 de março de 2012

São Petersburgo: chegando e entrando no clima

Chegamos no aeroporto de São Petersburgo logo após o meio dia (horário local) de um ensolarado dia de inverno suave. Foi simples e rápido passar pela imigração russa (um pequeno desconforto pois para verificar o passaporte eles nos olham fixamente nos olhos!), e logo estávamos liberados para visitar a cidade!

Saindo do aeroporto pela porta principal, logo a esquerda tem uma parada de ônibus cuja linha 13 (21 rublos a passagem) nos deixa na estação de metrô (linha 2) Moskovskaya. Basta descer logo após um enorme ponto circular onde fica o munumento aos Defensores da Cidade de Leningrado (como se chamava São Petersburgo). A gente começa a entrar "no clima" das pessoas e dos costumes e começa a entender que foi um povo que sofreu muito ao longo da história.




Aproveitamos para visitar um pouco essa localidade longe do centro da cidade e que fica fora dos guias turísticos. Ali encontra-se um pequeno complexo de 3 igrejas ortodoxas, com a Igreja da Natividade:

 São Jorge:
(não tinhamos entendido que estávamos caminhando sobre um lago congelado! Que medo!)
E essa que não consegui desvendar o nome!

Como eles se divertem:
Sentíamos todo o tempo um gostoso friozinho na barriga como se estivessemos de fato vivendo uma aventura... A primeira barreira era a língua, pois já tinhamos lido que os russos falam muito pouco inglês e que é dificílimo se comunicar, além do fato de serem antipáticos! 
Mas eu que sempre sou "do contra" tive uma outra impressão dos russos! Eles parecem um pouco "fechados" e "frios" num primeiro olhar, mas se esforçaram conosco para falar inglês (ou mesmo francês!) e quando não falavam mesmo, se esforçavam para nos compreender e nos comunicávamos com gestos. Eles riam muito dos meus gestos ou da minha forma de tentar dizer  zdravstvuitye dobrii den (bom dia) ou da svidaniia (adeus), mas ajudava a quebrar o gelo e eles acabavam sendo simpáticos e agradáveis conosco!




Locomover-se na cidade também foi muito fácil, pois além da escrita no alfabeto russo, tinha sempre alguma indicação no nosso alfabeto ou mesmo em inglês.

 Sabíamos que tinhamos que pegar a direção "Parnas" para descer bem no centrão de São Petersburgo (estação Nevskiy Prospekt) e era fácil encontrar entrada e saída. Mas basta seguir a multidão, ou melhor, nem tente ir contra ela, pois eles nos empurram mesmo!


De lá é possível visitar a maioria dos pontos turísticos à pé, apesar da cidade ser relativamente grande. Mas os russos adoram caminhar e fazem longas caminhadas até as 2 horas da manhã mesmo no inverno e mesmo sob a chuva, bem diferente da imagem que tivemos dos suiços, que não encontramos mais nas ruas ao cair da noite, deixando a cidade completamente deserta...

Assim que cheguei tive que me concientizar que não daria para ver ou visitar tudo. Felizmente para quem mora aqui na Europa as passagens para a Rússia são acessíveis e assim poderemos voltar facilmente em um outro momento, o que me deixou mais tranquila para seguir meu caminho turístico sem pressa.

Tivemos a impressão de São Petersburgo como uma cidade relativamente segura, pelo menos na parte mais turística onde estivemos. Em nenhum momento tivemos medo, tudo era bem iluminado e sempre tinha gente nas ruas, parques e jardins. Comércios ficam abertos até tarde da noite (22h30, por exemplo), e muitos locais abrem 24 horas, como cafeterias e restaurantes. O paraíso para os insoníacos!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Tratamentos desiguais

A viagem foi ótima, posso adiantar que amei São Petersburgo e quero voltar!!! Foi triste o momento "levantar acampamento". Ainda tenho que selecionar entre as mais de 1500 fotos que fizemos e confesso que nem sei por onde começar!!! Foram alguns dias de agitação e descanso ao mesmo tempo, e foi ótimo passar 4 dias sem telefone, sem internet, sem blog e sem facebook, por escolha, já que no nosso hotel tinha wi-fi disponível gratuitamente. 

Mas se foi muito simples entrar e sair da Rússia, foi um pouco mais complicado entrar e sair da "Europa".

Como falei aqui há algum tempo, por enquanto tenho que renovar todos os anos a minha permanência aqui. Desta última vez, ainda recebi pelo correio todo o meu dossier "recusado" por documentação incompleta, sendo que eu tinha enviado tudo há 3 meses, tudo que estava na lista que me dera. Mas na "recusa" eles incluiram à mão um documento que não estava na lista original!

A "carte de séjour" francesa é como uma carteira de identidade, e é assim:

Como resultado, minha carta de 1 ano não ficou pronta e tive que pedir um documento provisório. Ele é assim:
Eles grampeiam esse papel (récépissé) na carte de séjour e teoricamente temos que andar com os dois juntos, em caso de controle ou problemas. Basta os dois para circular na França, mas basta sair do país, mesmo na união européia, é necessário igualmente o passaporte.

Meu vôo de ida para São Petersburgo foi pela Lufthansa e tinha escala em Frankfurt. Lá no aeroporto, quando passei pela imigração, apresentei apenas meu passaporte. A mulher que me atendeu folheou, pediu a carte de séjour (até usou o termo em francês) e me perguntou meu motivo de residência na França. Felizmente eu a tinha comigo, mas fiquei me perguntando o que aconteceria se não tivesse... Não carimbaram meu passaporte, será que é por que moro aqui?

Na volta, meu vôo era pela Swiss Air, com escala em Zurique. A gente percebe então que europeu do oeste não gosta mesmo de europeus do leste (aqui colocam tudo "no mesmo saco" e chamam todos de países do leste no sentido pejorativo que o termo pode conter, independente se a criatura vem da Rússia, Polônia, Roménia, República Tcheca, Hungria, Ioguslávia*, etc...). Na saída do avião já tinha um grupo de policiais de fronteira pedindo para todo mundo sair do avião mostrando o passaporte. Quem tinha passaporte da União Européia passava direto, quem tinha passaporte russo era parado rapidamente para verificação do visto, e no meio de tantos passaportes bordôs e vermelhos, lá estava eu com um passaporte azul que chamou a atenção dos funcionários. A conversa foi a seguinte:
- Onde você vai?
- França.
- Mas você está na Suiça (como se eu não soubesse desse detalhe!!! Tive que resistir muito para não responder "ah bon? Não sabia!)
- Eu sei, tenho uma conexão para Paris. 
E mostrei meus dois papéis acima. Olharam em todos os sentidos e me liberaram...

Naquele terminal pelo que percebi chegavam naquele momento apenas vôos  oriundos da "europa do leste". A gente percebe que está realmente em um país de primeiro mundo, tudo limpinho, espaçoso, asséptico. No mesmo momento tinha vôo que chegava de Bucarest, Sofia, Minsk. Uma fila enorme para passar no detector de metais. 
Nunca tinha reparado nisso antes, mas no meio naquele saguão enorme tinham umas cabines como de provador de roupa de loja, com aquelas cortininhas... Demorei alguns segundos para me ligar que era para a revista (bem) íntima!!!

Coloquei minha bolsa no cestinho com uma sacola de tecido onde estava meu gorro, écharpe e um envelope pardo de tamanho A4 contendo 3 pinturas que Sylvain tinha comprado e que não podiam amassar de jeito nenhum.

Meu cestinho ficou bloqueado!!! Felizmente eu passei sem precisar de revista íntima e fiquei lá esperando os meus pertences. Após uns bons minutos vem um funcionário e começa a abrir tudo e apalpar tudo. Não quero dizer qual a melhor forma de fazer o seu trabalho, mas não seria melhor tirar tudo ao invés de ficar amassando cada conteúdo? Sem contar que ele começa a amassar o envelope com as pinturas!!! 
Sylvain ao meu lado estava branco, me dizia que ele estava amassando tudo... Enfim ele decide repassar meus pertences na maquina e vai até o aparelho para repassar o meu cestinho. Vi de longe, mas não podia voltar no controle para acompanhar o processo. Ele volta e me devolve o cesto...

Mas quem diz que o envelope com as pinturas estava ali dentro?

Entrei em pânico e pela primeira vez na vida vi Sylvain nervoso. Tentei explicar que estava faltando um envelope pardo e o imbecil do suiço insistia que não tinha visto envelope nenhum!!! Eu insistia que sim, descrevi as pinturas, disse que ele ainda tinha aberto,  e tocado em cada canto e que eu não sairia dali sem o envelope. E ele ali insistindo para que a gente saísse dali e avançasse. 
Então eu tento olhar em toda a esteira e sinalizo que do outro lado tinha um envelope como o nosso, mas estava no cesto de uma outra pessoa. Ele não queria nos deixar passar mas eu insisti com Sylvain e ele foi lá, abriu o envelope e era o nosso!!! A mulher pediu desculpas (mas nem era sua culpa, pois ela também estava esperando seu cestinho como nós e não tinha tocado nele), e o funcionário ainda tira o envelope das nossas mãos e diz, antes de nos devolver:
- Que fique bem claro que esse envelope nunca esteve em minhas mãos. Vocês que não sabiam onde o tinham colocado.

Que ódio!!! Mas fazer o quê, a gente tem que se submeter... Pouco mais tarde ainda tive que passar pela imigração para de fato "entrar" da Suiça e mais uma vez tive que mostrar meus mil papéis e responder a todas as perguntas possíveis sobre a minha permanência no país.

Olha, foi cansativo e estressante! Então por isso sempre aconselho a quem viaja pela Europa de ter todos os documentos em sua possessão. Se a gente não pode evitar os problemas, podemos ter em mãos todas as soluções!

Pronto, desabafei!

* salientando que esse último "país" não existe mais, ou seja, foi desmembrado e deu origem a outros nomes. Mas ainda fica no imaginário dos europeus que como eu disse mais acima, colocam todos os "europeus do leste" no mesmo "saco".

** a minha nova carte de séjour é parecida com um cartão de crédito, trata-se do novo formato.